por Luís Francisco Marques

O ano novo não deita o velho fora. Não há ano zero. No quadro da evolução, quer simplesmente cronológica, quer na esfera da construção de significado e de interpretação da realidade, somos sempre herdeiros que acrescentamos. Por outro lado, apesar da memória, da reconstrução e da recuperação, o novo é realmente novo. Ninguém o viveu nem o escreveu. Os artistas somos nós. Por mais previsões, análises e diagnósticos, a variável da imprevisibilidade será sempre algo de incontrolável. Por mais ordens ditadas e obediências praticadas, a criatividade vai ser sempre uma irreverência desalinhada que teimará em ir além do óbvio estabelecido e, muitas vezes, de outras maneiras. Por mais prognósticos catastrofistas, habita-nos sempre uma esperança recôndita e impronunciável de que tudo pode ser realmente melhor,  efectivamente como desejamos de verdade.

Por isso, mais elaborado ou mais simples, o ano começa. E sabemos, porque sentimos e experimentamos, que ao menos o ‘possível’ depende de nós. E talvez seja por aqui que tudo possa principiar, pela consciência do ‘possível’, na responsabilidade concreta por uma parte pequena do mundo, sem perder o horizonte do todo e confiando que ao menos mais alguns vão fazer o mesmo. E isto sem deixar de sonhar e sem abafar a capacidade de espanto. Mas, de contrário, o perfeccionismo vai esmagar-nos porque se instalará a depressão de nunca o conseguir em absoluto. A desconfiança instalar-se-á e transformar-nos-emos em pretensos donos da verdade e gente disfarçada de auto-suficiente. Assim, que se ame o possível, sem perder de vista a responsabilidade de o (re)construir e as possibilidades de o acrescentar e re(criar).

Depois, importa trabalhar. Uma vida descansada é uma vida que se cansa em medidas ‘justas’. Assume o pragmatismo da necessidade, sem inventar necessidades desnecessárias e patológicas. Mas não se rende a este ‘registo’ e procura no ‘suor’ uma possibildade de equilibrio e de feliz realização.

Convém também ter tempo. Tempo para ser livre e cuidar do que importa. Antes de mais, para parar e reflectir, para cultivar o silêncio e preencher o interior, para escutar o essencial e para cuidar de cada um e daqueles que são mais importantes. Escutar muito, ensaiar falar do importante alternando com o decanso no mais ‘banal’, acrescentar humor polvilhado com simplicidade e descontração, podem ser bons exercícios para o exercício quotidiano das relações.

E então, encontremos ainda um ‘hobby’, alguma coisa que dê prazer fazer e nos construa como pessoas. Leiamos mais, sobretudo os ‘clássicos’, os romances, as grandes e fortes narrativas, os autores que retrataram longa e amadurecidamente a condição humana, porque tinham tempo para a pensar e se dispuham a isso. E ouçamos música, sobretudo as grandes criações, que, aparentemente do nada e pela inspiração dos génios, arrancam majestosas sinfonias que mais não são que o divino no mundo. E contemplemos arte, para apre(e)nder a beleza e treinar o olhar e a sensibilidade de todos os sentidos. E viajemos, cruzando mapas, alargando horizontes com línguas e culturas, calcorreando a pé os lugares recônditos e as ágoras públicas onde a vida se diz e se joga.

E regressemos sempre à tranquilidade simples e aconchegante do(s) lare(s) e às companhias essenciais, reconfortantes e inspiradoras. Aí acontecem os ricochetes estruturantes, que nos devolvem os gestos, nos reenviam os olhares, nos respondem e nos obrigam a responder com palavras e sem elas. Aí aprendemos quem de facto somos. E ganhamos ânimo para que o novo (ano e não só) não seja somente uma herança da inevitável cronologia, mas um exercício partilhado de construção criativa.

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