Como podemos encontrar Jesus[1]
28 de abril 2020
Cântico
Deus está aqui
Tão certo como ar que eu respiro
Tão certo como a manhã que se levanta
Tão certo como este canto que podes ouvir
Tu O podes sentir
movendo-se por entre os ramos.
Tu O podes ouvir
cantando connosco aqui.
Tu O podes levar
quando por esta porta saias.
Tu O podes guardar
para sempre no teu coração.
Introdução
Hoje juntamo-nos num espaço diferente do CUFC.
Muitos não sabem, mas o chão do hall de entrada do CUFC levantou e está a ser substituído, por isso, hoje não conseguimos passar para a nossa Capela, mas juntamo-nos no nosso salão com os que nos acompanham de casa.
A nossa oração hoje, vai ser com a ajuda do texto do Evangelho do passado Domingo e a reflexão do padre Nuno Tovar de Lemos, no livro Textos para rezar.
Deixemos que o nosso coração se abra ao que o Senhor tem para nos dizer esta noite.
Cântico – Aleluia
Texto
Lc 24, 13-35
Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». E Ele perguntou: «Que foi?». Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.
Reflexão
Quem já faz o caminho de Santiago certamente entende bem o que é isto de se conhecer gente enquanto se caminha. No tempo de Jesus caminhava-se muito a pé e era normal as pessoas meterem conversa umas com as outras enquanto caminhavam. Foi isto que aconteceu a dois discípulos de Jesus. Regressavam a casa – a Emaús – vindos de Jerusalém, depois de aí terem presenciado os acontecimentos terríveis da Paixão e da Morte de Jesus. Enquanto caminhavam, o próprio Jesus Ressuscitado meteu conversa com eles:
Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Jesus Ressuscitado parece-lhes sem pompa nem circunstância. Pelo contrário: chamam a atenção a descontração, a simplicidade e a boa disposição de Jesus: não faz cerimónia nenhuma em meter conversa, perguntando-lhes de que estavam a falar, e brinca até com eles, fazendo-Se de ignorante em relação à Sua própria morte:
«Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». E Ele perguntou: «Que foi?».
A empatia que se criou entre eles e Jesus foi tal que acabaram por O convidar a passar a noite em sua casa quando chegaram a Emaús:
«Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite»
E a história termina de uma forma absolutamente surpreendente:
Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença.
É só aqui que reconhecem Jesus. Parece estranho não O terem reconhecido fisicamente! Não podiam, porque Jesus Ressuscitado aparecia sempre com um aspecto diferente. Porquê? Talvez para que as pessoas percebessem que não tinha simplesmente «desmorrido» ou sido reanimado: que era mesmo Jesus, sim, mas agora numa situação completamente diferente da sua situação de vida terrena. Nas aparições as pessoas acabam sempre por O reconhecer mas através de sinais indicadores (No caso desta aparição há muitos sinais, mas o mais claro e definitivo é o «partir do pão», que certamente lhes fez lembrar a Última Ceia). Isto é muito importante para nós, porque é precisamente essa a nossa situação: reconhecemos Jesus nas nossas vidas não pelo aspecto físico (é invisível), mas pelos sinais que envolvem a Sua presença.
Este texto foi escrito (como todos os textos dos Evangelhos) não só para relatar factos que aconteceram há 2000 anos, mas para nos dizer como podemos ser cristão hoje. E ser cristão hoje é precisamente isto que aconteceu aos discípulos de Emaús: caminhar pela estrada da vida, acompanhados por Jesus Ressuscitado. A fé cristã, na sua essência, não é uma doutrina, uma moral ou uma série de rituais de culto: a fé cristã é uma relação, uma amizade pessoal com Jesus cristo ressuscitado, que está vivo e presente em cada situação da nossa vida. Escrevia o Papa Bento XVI que:
«A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele[2]».
Com a fé cristã surge imediatamente a questão: na prática, como é que podemos encontrar Jesus hoje nas nossa vidas? O texto da aparição aos discípulos de Emaús, da maneira como está escrito, pretende responder a esta questão. Este texto dá-nos pistas sobre onde podemos hoje procurar Jesus Ressuscitado:
1. Procura-O na pessoa que cruza o teu caminho
Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho.
Muitas vezes, Ele faz-Se presente, toca-nos e fala-nos através de outras pessoas que cruzam o nosso caminho e dizem ou fazem alguma coisa que depois entendemos como Graça.
2. Procura-O nas Escrituras bem interpretadas, sobretudo quando te tocam
«Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?».
Através das Escrituras, da Bíblia, Deus fala-nos se as lemos de coração aberto. Por isso é que na Missa, no fim de algumas leituras dizemos «Palavra do Senhor».
3. Procura-O nos acontecimentos «absurdos»
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido (…) «Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia…».
Eles conversavam sobre os acontecimentos da Paixão e Morte de Jesus e como tinham saído completamente frustradas as suas esperanças de que Jesus fosse o libertador de Israel. Então Jesus faz uma leitura diferente dos acontecimentos, interpretando-os à kuz da Bíblia:
«Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Mostra-lhes a Sua Morte com outros olhos, não como beco sem saída, mas como porta. Também nós, por vezes, só mais tarde entendemos como Ele esteve presente em determinados acontecimentos «absurdos» da nossa vida (como na oração «Pegadas na areia») e o sentido que, eventualmente, eles tiveram. Muitas vezes há que dar tempo ao tempo e esperar pelo «terceiro dia» para se começar a perceber um novo sentido nalguns acontecimentos do passado.
4. Procura-O nos gestos de hospitalidade
Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite».
Um gesto de verdadeira hospitalidade desinteressada é sempre algo sagrado, onde quer que aconteça. Por vezes é o próprio Cristo que nos abre portas quango alguém nos abre uma porta
5. Procura-O no Pão da Eucaristia
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O.
O pão e o vinho consagrados na Missa, são uma forma privilegiada de presença que Jesus escolheu na Última Ceia.
6. Procura-O na Comunidade de Fé
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
Através da comunidade de fé, Jesus faz-Se presente e fala-nos. Como o próprio Jesus disse noutra ocasião: «Quando dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles» (Mt 18, 20).
Será que ele Se faz sempre presente para nós indiscriminadamente em todas as pessoas que se cruza connosco no metropolitano, em todas as linhas da Bíblia que lemos, em todos os acontecimentos absurdos, em todos os momentos da vida em Comunidade, etc? Não. Potencialmente sim, mas na prática não. Ele é livre e faz-Se presente quando quer e da maneira que quer.
A presença do Senhor reconhece-se pelos frutos que deixa. São três os frutos principais da ação do Senhor quando nos abrimos à Sua presença:
- Crescimento na Fé. Aumento da nossa proximidade afetiva com Deus e da nossa capacidade de fazer a sua vontade na Igreja.
- Crescimento na Esperança. Aumento da nossa capacidade de nos atirarmos à vida e à construção da História, na certeza de que ela terá um sentido final – o CÉU.
- Crescimento na Caridade. Aumento da nossa capacidade de nos deixarmos tocar pela situação do outro e de estarmos lá para ele, na prática.
São estes os principais critérios para o discernimento da Presença de Jesus Ressuscitado nas nossas vidas de hoje.
Para refletir
- Revê as seis formas de presença de Jesus Ressuscitado e tenta perceber como é que Ele, ultimamente. Se tem feito presente na tua vida. (Eventualmente através de uma sétima forma…) Não te esqueças que a Sua presença se vê nos frutos de crescimento. Pensa também como é que te podes encontrar com Ele a sós na tua vida do dia-a-dia.
- Olhando para a tua história passada, há algum acontecimento «absurdo» no qual Jesus possa ter estado presente? Imagina que Ele mesmo te escreve uma carta a dizer onde esteve, o que fez e o que sentiu.
(Música de fundo)
Oração
Uma noite eu tive um sonho.
Sonhei que andava na praia com o Senhor,
e, no firmamento, passavam cenas da minha vida.
Após cada cena que passava, percebi que ficavam dois pares de pegadas: um era o meu e o outro era do Senhor.
Quando a última cena da minha vida
passou diante de nós, olhei para trás,
para as pegadas na areia,
e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida,
havia apenas um par de pegadas na areia.
Notei também que isso aconteceu nos momentos
mais difíceis e angustiosos do meu viver.
Isso aborreceu-me deveras e perguntei então ao Senhor:
– Senhor, Tu disseste-me que,
uma vez que resolvi seguir-Te, Tu andarias sempre comigo, em todos os caminhos.
Contudo, notei que durante as maiores tribulações do meu viver,
havia unicamente um par de pegadas na areia.
Não compreendo por que é que,
nas horas em que eu mais necessitava de Ti,
Tu me deixaste sozinho…
O Senhor respondeu-me:
– Meu querido filho,
jamais te deixaria nas horas da prova e do sofrimento.
Quando viste, na areia,
apenas um par de pegadas, eram as minhas.
Foi exactamente aí que eu peguei em ti ao colo.
Cântico
Surrexit Dominus vere, alleluia, alleluia!
Surrexit Christus hodie, alleluia, alleluia!
[1] NUNO TOVAR DE LEMOS – Textos para rezar, A.O.
[2] BENTO XVI, Carta Apostólica Porta da Fé, nº 10.