Por Eduardo Lima

Nestes dias em confinamento, todos fomos confrontados com diversos desafios que trouxeram novas oportunidades. Muitos de nós jovens universitários tivemos de deixar as cidades onde estudamos para (re)aprender a partilhar o mesmo teto com a nossa família. E quão difícil pode ser estar esta tarefa? Quantas vezes discordamos dos nossos pais, irmãos, tios, avós e eles de nós? Quantas vezes queremos afirmar a nossa “independência” e tomamos decisões erradas sem querer ouvir o que nos têm para dizer? Quantas vezes num dia mau optamos por discutir e entrar em conflito com os que nos rodeiam em vez de aproveitarmos para falar com o outro e aumentar o nosso amor?

É com estas e outras dificuldades que se confronta a personagem principal de Lady Bird, um filme de 2017 com argumento e direção de Greta Gerwig, protagonizado por Saoirse Ronan e Laurie Metclaf. Filme este que foi indicado no ano seguinte para 5 categorias nos Óscares e venceu os Globos de Ouro de Melhor Filme e Melhor Atriz na categoria Comédia/Musical.

De facto, Lady Bird é uma jovem de Sacramento (Califórnia) que estuda no último ano de uma escola secundária católica feminina. Como uma adolescente revolucionária que é, descobre através das decisões que toma o charme e os vícios deste mundo pré-universidade em que tanto se necessita de uma afirmação pessoal.

Muitas são as coisas me apaixonam neste filme. Por um lado, falar de Lady Bird é falar de uma perspetiva religiosa subentendida na construção de uma narrativa cinematográfica que tem o seu auge no arrebatante final. Por outro lado, é possível qualquer tipo de público identificar-se com as fortes personalidades da mãe e filha protagonistas e com este amor incondicional, muitas vezes inconsciente, que ambas têm pelo seu lar e uma pela outra.

Por fim, não posso deixar de mencionar a encantadora e irresistível banda sonora do compositor americano Jon Brion. Um agrupamento curioso de instrumentos de madeira, guitarra, piano e percussão, aliado a uma sonoridade característica que alterna entre o meio pop-rock e a música erudita, formam os sons que criam o plano de fundo emocional desta obra cinematográfica.

A música final resume o filme na perfeição. Em primeiro lugar, ouvimos uma textura coral que relembra um contraponto subtil num órgão de tubos e nos remete para a música religiosa do compositor Johann Sebastian Bach. Com isto, Brion quer representar as origens católicas de Lady Bird e sua terra-natal. Seguidamente, dá-se lugar a uma balada que já havia sido usada noutros momentos do filme. Este trecho musical transporta consigo outra ideia-chave da narrativa: um espírito livre, errante, ambicioso e sonhador que se traduz num apontamento cromático descendente de piano e flauta e numa harmonia modal e um tanto ousada.

Parece difícil muitas vezes conviver com o próximo e compreender que a moeda tem sempre dois lados. Mas a verdade é que apesar de todos os erros que possamos cometer, não importa

o quão longe ou perto estamos uns dos outros, o melhor teto que temos para nos acolher e a amar será sempre a nossa família. Espero que este filme vos inspire a agradecer e a mimar todos os dias a família que temos e em quem nem sempre reparamos.